Normal People: a série que nos lembra que os caminhos da vida não são lineares

Normal People: a série que nos lembra que os caminhos da vida não são lineares

Já tinha ouvido falar sobre Normal People há algum tempo, mas na época não dei muita atenção. Para ser bem sincero, a questão é que o título não tinha me chamado a atenção. “Uma série chamada Pessoas Normais? Já sei que não vou gostar…”. E assim, mais uma vez, eu não poderia estar mais enganado.

Normal People é uma minissérie de 12 episódios de cerca de 25 minutos cada. É ambientada na Irlanda e foi produzida em uma parceria entre o canal BBC e a plataforma de streaming Hulu. Baseada no romance best-seller da escritora Sally Rooney, a série conta a história da paixão intempestiva do casal Marianne (Daisy Edgar-Jones) e Connell (Paul Mescal), convidando o espectador a acompanhar o desabrochar da relação e suas idas e vindas desde o último ano do ensino médio até o final da faculdade.

Ao contrário do que o título sugere, Normal People não é um romance sobre pessoas normais, pelo menos não se por “normal” você entende comum. Na verdade, após concluir a série, o que fica na mente é que o título mais parece uma grande provocação, quase como se houvesse um ponto de interrogação invisível no final.

Os dois protagonistas carregam uma nuance de sentimentos muito difícil de colocar em palavras, cada um com seus traumas e suas expectativas. Talvez, olhando por essa perspectiva, o normal do título faça mais sentido. Não somos todos, afinal, um vendaval de sentimentos? Essa é a normalidade que nos une.

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A ausência de caminhos lineares

Nossa tendência natural é buscar caminhos lineares para tudo o que fazemos, para todo lugar que queremos ir. Traçar um plano, definir começo, meio e fim e seguir caminhando. Uma das maiores contribuições de Normal People é nos lembrar a todo instante que os caminhos da vida não são lineares, por mais que lutemos para que se tornem.

Marianne e Connell têm diversas oportunidades de ficar juntos ao longo dos anos, mas alguma coisa sempre está no caminho – quando não é outro alguém, são eles mesmos e suas complexidades. E não é como se isso fosse feito de propósito. A verdade é que quando analisamos as trajetórias de vida de outras pessoas, é sempre mais fácil propor soluções. Mas quando somos nós vivendo aquilo, lutando para manter a cabeça fora desse mar de sentimentos, é difícil olhar as coisas em perspectiva. 

É nesse aspecto que a história de amor de Connell e Marianne demonstra maior força. Somos constantemente desafiados a olhar para a trama com uma dose de sensibilidade e maturidade que talvez não estejamos acostumados a empregar a produtos de consumo rápido, como as séries de streaming.

Se você embarca na história de Normal People apenas pelo felizes para sempre, vai se frustrar. Mas se olhar para a série como um grande exercício de sensibilidade, vai perceber que as atitudes do casal de protagonistas se tornam mais críveis, mais humanas. As vezes só amar não é o bastante. Simplismo nem sempre é a resposta.

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Daisy Edgar-Jones e Paul Mescal vivem Marianne e Connell na aclamada série da BBC, Normal People.
Daisy Edgar-Jones e Paul Mescal vivem Marianne e Connell na aclamada série da BBC, Normal People.

A força das interpretações

Desde que foi lançada em abril deste ano, Normal People vem sendo aclamada pela crítica. A série recebeu três indicações ao Emmy, incluindo Melhor Ator de Minissérie, para Paul Mescal.

Paul, aliás, é uma grata surpresa. Nos primeiros episódios, o personagem não apresenta muita força narrativa. Mas a partir do momento que o ensino médio termina e a vida adulta de Connell começa, o personagem evolui absurdamente e a atuação de Paul rende grandes momentos. O destaque fica para uma delicada cena de conversa entre Connell e sua psicóloga. O desabafo do personagem atinge o espectador em cheio. 

Daisy Edgar-Jones também entrega bons momentos e comove bastante o espectador especialmente pela fragilidade de Marianne. 

Outro aspecto que merece elogio é a destreza que a direção encontra para retratar cenas do cotidiano. Até mesmo a nudez, comum ao longo dos episódios, é apresentada com delicadeza e naturalidade.

Sally Rooney, autora do aclamado livro de mesmo nome que inspirou a série, é uma das roteiristas e produtoras de Normal People. A maneira como a série capta a essência do livro também foi elogiada por muitos veículos.

[pequeno spoiler a seguir]

A série termina onde o livro termina. Justamente por isso, pelo menos por hora, nem o diretor e nem a roteirista pretendem falar sobre uma possível nova temporada. “Isso é o que é tão maravilhoso sobre o livro. No final, eles [os personagens] são cheios de vida e você não sabe para onde eles irão. É incômodo de ler, mas também é bastante emocionante e realista. Terminamos a série de maneira semelhante. Acho muito interessante deixar o final em aberto”, comentou Daisy Edgar-Jones ao NME.

No Brasil, Normal People está disponível pelo serviço de streaming Starzplay e no Amazon Prime Video Channels.

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